quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Empoderamento Feminino

Lendo um.livro de psicologia cheguei num trecho que a autora diz que no conto de fadas "a Bela e a Fera" , existe a...

Publicado por Letícia Buendía em Quarta, 24 de fevereiro de 2016

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Refém: Uma resposta à Fernanda Torres de Carol Patrocinio

Fernanda, preciso te contar uma coisa: estamos em 2016 e a escravidão acabou há 128 anos. Sei que é pouco tempo, mas já deu pra se localizar no contexto social em que vivemos e aprender a olhar o mundo com empatia, ainda mais quando o acesso a informação é tão fácil. É triste quando mulheres reproduzem o machismo, mas a gente entende. Eu, assim como você, fui criada nessa mesma sociedade machista. Só que quando mulheres cultas, chamadas de intelectuais e com acesso a informação reproduzem um discurso falso é complicado de lidar. Tó, miga, tó essa magia para abrir a sua cabeça E, olha só, você tem acesso a toda essa informação. Você mesma deixa isso claro no seu texto. E falar que a diferença com que o mundo trata homens e mulheres é biológica é quase criminosa: esse mesmo tipo de teoria foi utilizada para "comprovar" que negros deveriam ser escravizados. Esse é o lado que você escolheu ficar, Fernanda. O problema é que não é apenas nesse ponto que seu texto se mostra além de intelectualmente desonesto, racista e machista. Que diferença biológica faria com que uma mulher ganhasse um salário menor do que um homem que ocupa a mesma função, tem a mesma experiência e educação? Que diferença biológica faz com que seus pares recebam mais do que você ao escrever um livro ou roteiro? Porque isso acontece, Fernanda. E não há diferença biológica nenhuma nisso. "Tenho gratidão pelas babás que me criaram e que criaram meus filhos, cumprindo a função da mãe social, que nos tempos da vovó menina era feito pelas tias, primas, avós e irmãs da casa" Mãe social? Você nota quão escravocrata é isso? Quem cria os filhos das babás? Filhos são feitos por um casal e é esse casal quem tem que arcar com sua criação com a colaboração de toda a sociedade, incluindo o chefe que acha que mulher sai demais quando tá com filho doente. Uma criança é um legado para o mundo. "Minha babá era um avião de mulher, uma mulata mineira chamada Irene que causava furor onde quer que passasse. Eu ia para a escola ouvindo os homens uivando, ganindo, gemendo, nas obras, nas ruas, enquanto ela seguia orgulhosa. Sempre associei esse fenômeno à magia da Irene. O assédio não a diminuía, pelo contrário, era um poder admirável que ela possuía e que nunca cheguei a experimentar" Antes de tudo, você sabe o que quer dizer mulata? Poderia ter dado uma olhada nos textos publicados nessa mesma coluna que você usa para espalhar seu parco conhecimento social e aprenderia com o texto A Mulata Globeleza: Um Manifesto: "A palavra de origem espanhola vem de 'mula' ou 'mulo': aquilo que é híbrido, originário do cruzamento entre espécies. Mulas são animais nascidos do cruzamento dos jumentos com éguas ou dos cavalos com jumentas. Em outra acepção, são resultado da cópula do animal considerado nobre (equus caballus) com o animal tido de segunda classe (equus africanus asinus). Sendo assim, trata-se de uma palavra pejorativa que indica mestiçagem, impureza. Mistura imprópria que não deveria existir. Empregado desde o período colonial, o termo era usado para designar negros de pele mais clara, frutos do estupro de escravas pelos senhores de engenho. Tal nomenclatura tem cunho machista e racista e foi transferido à personagem globeleza, naturalizado. A adjetivação 'mulata' é uma memória triste dos 354 anos (1534 a 1888) de escravidão negra no Brasil." Eu sei, você não é racista. Nenhum de nós o é. Mas, para dor e desespero de muito, não é a gente que decide isso, mas o outro. É quem olha de fora que pode dizer se você está ofendendo. É o negro que decide. Nós, brancos, não estamos acostumados com negros decidindo nada, mas é assim que o mundo funciona hoje em dia. Além desse termo horrível, você fala que sua babá, que era negra ou não-branca, ouvia absurdos por onde passava. O que você chama de "homens uivando, ganindo, gemendo", eu chamo de absurdos. Você imagina como ela se sentia? Você acha que algum desses caras gostaria de apresentá-la para a mãe, levar no almoço de domingo, desfilar com ela pela orla? Não, Fernanda, a maior parte desses homens querem transar com mulheres negras e casar com mulheres brancas. Infelizmente, no imaginário masculino, até hoje existe mulher para transar e mulher para casar. E continua sendo igual na época da escravidão. Pensamentos como esse corroboram para que esse imaginário se mantenha. Você já pensou em conversar com a mulher que trabalhava para sua família como babá o que ela achava desse assédio? Porque, assim, ela existe, é uma pessoa. (E sobre esse assunto, tanto da hipersexualização da mulher negra quanto da sua solidão, indico três textos maravilhosos: A carne mais exótica do mercado, A solidão da mulher negra e o racismo cotidiano e Síndrome de Cirilo e a solidão da mulher negra). Você ainda fala que inveja "o companheirismo dos homens, o prazer que eles sentem de estarem juntos e se divertirem com qualquer bobagem". Será que o problema são as mulheres ou as relações que você vem travando com outras mulheres? Durante anos eu senti o mesmo que você. Só andava com os caras, queria ser um dos caras, queria ser como eles, ter amizades como as deles. E aí eu descobri mulheres incríveis ao meu redor. Mulheres que não competiam comigo nem eu com elas, mulheres que riam de besteira, dividiam o prazer de fazer nada juntas, que entendiam que tanta coisa nos unia e não valia a pena deixar nada nos separar. Hoje a gente criou a Comum que é um lugar em que a gente aprende que juntas somos mais fortes e podemos materializar esses encontros cheios de risadas, amor e amizade entre mulheres. O machismo não incomoda enquanto ele não é uma bela água batendo na sua bunda pelada. Uma água de banheiro público que esfria sua bunda quando você menos imagina. Aí ele incomoda. Mas existem contextos em que é fácil viver numa boa com o machismo e achar que ele se resume a ser machão. Machismo mata. Violenta mulheres. Acaba com vidas. Diz que tudo bem abandonar um filho. Faz parecer besteira a gente querer andar pela rua sem ser desrespeitada, seja verbal ou fisicamente. O machismo não é apenas um cara que gosta de transar, coçar o saco e falar besteira. Tudo isso a gente também gosta, inclusive de coçar. "O Brasil está entre um e outro" Infelizmente, Fernanda, o Brasil está mais perto da Índia e seus estupros coletivos que contam com a vergonha da mulher em denunciar do que da Alemanha e sua vontade de se distanciar da história de terror do seu passado. O flerte não é um problema, mas o flerte não é o assédio, não é a cantada de rua, não é a cultura do estupro que nos convence de que mulheres existem para servir os desejos sexuais dos homens. "Uma vida de indiferença, onde todo mundo é neutro, não falo igual, digo neutro, sem xoxota, sem peito, sem pau, bigode, ah... é uma desgraça" Não consigo entender de onde as pessoas tiram essa ideia. Quer dizer, entendo pessoas com pouco acesso a informação, que assistem programas em emissoras opressoras, acreditarem no que escutam ali, mas gente chamada de intelectual... As pessoas continuam tendo vaginas e pênis, seios, bigodes... Continuam transando, paquerando, dançando até o chão e talvez no colo do coleguinha. A diferença é que essas diferenças só existe ali, em mais nada. Adoro um pênis. Uma vagina também. Mas nada disso me importa na hora de contratar uma pessoa. Não me importa na hora de pagar bem quem oferece um serviço de qualidade. Não me importa quando alguém sobre violência. Não faz diferença nenhuma se tem peito, pinto, buceta, bigode. Ou se tem peito com pinto. Ou buceta com bigode. Vê a diferença? É sutil, mas está ali. "A vitimização do discurso feminista me irrita mais do que o machismo. Fora as questões práticas e sociais, muitas vezes, a dependência, a aceitação e a sujeição da mulher partem dela mesma. Reclamar do homem é inútil. Só a mulher tem o poder de se livrar das próprias amarras, para se tornar mais mulher do que jamais pensou ser" A parte mais importante desse trecho do seu texto é o MUITAS VEZES. Porque quando você o usa está assumindo que não é sempre assim. E aí falta empatia. Você não é uma má pessoa, mas comete o erro mais comum de todos: mede o mundo por você. A você falta essa vontade de ser livre? Essa força para lutar contra todas as amarras que você acha que precisa manter para ser "feminina", "desejável", "ter sucesso"? Porque, Fernanda, você não precisa. Você é refém de tudo isso. E é a exceção, aquela que comprova a regra. No final das contas você apenas está fazendo com que tudo o que a gente diz se prove ainda mais verdadeiro. A gente não está se sujeitando, está apenas seguindo as regras que dizem pra gente que são as certas. Até o dia em que a gente abre os olhos, escolhe a pílula certa entre a vermelha e a azul, aguenta o clarão passar e começa a enxergar o mundo com mais objetividade, sem vendas nos olhos, nem as de renda que só deixam tudo meio confuso. E nesse dia a gente entende uma coisa incrível e que vai totalmente de encontro ao que você diz em seu texto: "Nunca fui mulher o suficiente para chegar a ser homem" O que eu te digo é que eu descobri que sou mulher o suficiente para não querer ser homem. E isso me torna completa, forte, plena e pronta para levar luz a assuntos que incomodem quem adora sentar no topo da montanha de privilégios. Machistas não passarão. Racistas não passarão. Independente se são homens ou mulheres. Você ganha a minha sororidade - a tal amizade entre mulheres, sabe? -- porque eu sei que não é fácil sair desse fluxo de obrigações femininas e silenciamento, mas não espere uma mão sendo passada pela sua cabeça: você é mulher o suficiente para ser melhor do que isso. *Esse texto é uma resposta ao conteúdo publicado pela autora e atriz Fernanda Torres, sob o título Mulher no blog #AgoraÉQueSãoElas, do site do jornal Folha de S. Paulo *Texto originalmente publicado em Medium Carol Patrocinio Carol Patrocinio é jornalista, mãe, feminista e busca uma vida mais saudável em todos os sentidos: social, política e sustentavelmente.

sábado, 25 de outubro de 2014

Dela

Flamejo enquanto acendo Refresco quando acalmo... Acalmo com teu caule na mão De esquerda ou direita A sacudir ou alisar A engolir ou a chupar Refresco com a tua língua A me lamber, a me dizer a me salvar Anseios, distâncias , fluídos não me confunde rumo nenhum... O meu rumo é onde está teu corpo de pelos acordados ou não, de sedes transtornadas ou não. Rumo certeiramente pra onde estiver teu cajado exuberante e erguido e faço dele o meu pileque. Trêbada de suor saliva e sêmen levito no teu precipício e te saúdo a nuca com um beijo de hálito quente. Te firo pra mostrar quem é que manda, mas eu sou tua-só-tua. Meu aroma de fêmea só existe por que você é o macho. Obra de Égon Schiele

Dele

Anseios fluídos pela distância, Onde a noite confunde os rumos Transtornados pela sede, Pelo frio e pelos apetites Beijos que acordam pelos, Nucas, pele a pele, E espera pra que eu a pegue Sem máscaras, sem pileque, sem roupa Poupa , desnuda, semente Lábios flamejantes, hálito quente Teu aroma de fêmea. Que me fere acariciando E me levita de meus precipícios, Na direção da tua fonte, Ao estalo do cajado Sempre erguido sob o sol Na direção de sua fluente Que flameja enquanto acesa e refresca enquanto calma.
Foto: Julia Fullerton

Pertencimentos

Sabe quando eu percebi que eu te pertencia? Talvez não vá se recordar...é tolice...desimportante...como a coleção de coisas que faço importância e que pra você passam despercebidas... Na primeira vez que pousou a mão no meu seio sob a camiseta da Betty Boop e disse: Você é tão bonita que dá medo...quando nossos lábios cortaram o silêncio de uns quase dez minutos e saímos de mãos dadas madrugada afora. Ali eu já te pertencia...mas você nem fazia ideia do tamanho real de meu pertencimento...e você pertencia a todas...que
azar o meu pertencer a você. Eu já pertencia à você quando fui comprar no dia seguinte um março de hollyood azul, pra parecer sua alma gêmea até na marca do cigarro. Quando me castigou o olhar desfilando suas coxas vestidas com calças femininas e passeou de mãos dadas com uma morena de cabelos longos, eu já pertencia a você mesmo morrendo de raiva, ciúme e tristeza por dentro. Eu disfarcei com um sorriso mais falso que toda a minha simpatia. Quando me olhou com um olhar bêbado de poeta da moda, e riu da minha inexperiência em receber poesias mentirosas e piegas escritas com caneta barata eu te pertencia. E sabe quando eu percebi que eu estava perdida? Quando eu te procurava em todos os ônibus que pegava, em todos os lugares que ia, em todo ar que respirava, e você não aparecia. Eu te pertencia mesmo no ônibus errado. Sabe quando eu descobri que estava doente? Quando você passou a ser meu assunto preferido, minha emoção preferida, minha dor preferida, minha poesia preferida. Eu te pertencia na saúde e na doença. Eu havia desvairado quando enfim te encontrei por acaso no mesmo bairro de sempre e você tocou meu queixo e eu saí correndo com medo de desmaiar ou ruborescer. Você riu. Eu percebi que era sua quando adormeci no nosso primeiro coito e ainda assim ali era onde eu mais queria estar.Eu pedia cada dia que aquela noite se repetisse...mas ela não se repetiu...por muito tempo. Eu te pertencia muito ainda quando fui te procurar diversas vezes na sua casa e ouvi dizer: - Está com uma mulher aí ...e eu voltava desalentada para a casa que eu não queria voltar. Eu perdi a conta das atrizes que amou, mas ainda assim eu te pertencia. Eu te pertencia quando segurou minha mão e disse: desculpa pela minha mentira e as páginas da minha vida ficaram 3 anos em branco. Mas eu te pertencia ainda. Eu odiei ainda mais as atrizes ...eu te odiei mais um pouco, mas pertencer eu te pertencia. Eu tive ciúmes de todas as mulheres que se aproximaram de você. TODAS. Lembra daquela que dançava contigo quando você lhe inferiu um beijo indiscutivelmente pestilento...Eu saí correndo esbaforida e chorando por que presenciei um beijo seu em outra trágica morena. Como te odiei...Como odiei a morena...como odiei todas as morenas do mundo... Tive a visão clara de meu pertencimento a você quando comecei a desistir com certa mágoa e cansaço e me joguei em outros colos. Tinha certeza que te pertencia quando aceitei sua amizade pra não enlouquecer de amor e ódio. E aceitar de vez que a gente não se pertencia nada. Meu pertencimento era certo quando passei a precisar de encontros contigo sobre diversos pretextos, e me pintava e perfumava e me embebia toda pra te parecer mais digna do teu pertencimento. E meu coração pululava sempre...que piegas. Passei a te pertencer de fato quando me apaixonei por uma pá de homens e não amei nenhum deles. Te pertenci quando num certo por acaso te visitei como quem nada faz de melhor num final de tarde e me lancei a jogo novamente. Apostei-me ao teu braço de homem feito. Você ganhou...eu também. Eu finalmente te pertencia...quando todos os encontros eram iguais aos de antes ...a mesma emoção, a mesma vontade, a mesma certeza, o mesmo fulgor nos olhos e no resto. A gente se pertencia quando o meu gemido escapulia com facilidade até a sala e quiçá no condomínio inteiro. A gente se pertencia quando eu bebia vodca no banheiro enquanto você fumava um beck no telhado. E quando nossos vícios se encontravam era outro novo vício que nascia. Continuei te pertencendo quando tudo desmoronou e você foi embora alegando não saber reconstruir. Eu te pertencia ainda, apesar de qualquer Mariana surgida não sei como 10 dias, apenas 10 dias após as cinzas. Era a Fênix errada. Aliás não era Fênix nada... Te pertenci ainda mais quando passei a viver pelas mesmas esquinas que você vivia...te chamei pra perto...você disse Não...mas depois disse Sim...e a gente deu início a um novo pertencimento...esse que a gente pertence até hoje...ou não? A gente se pertenceu tanto que de dentro de mim cresceu ela: A Pérola Calma que você visionou há anos atrás quando escreveu na capa do cd do Belle e Sebastian: “Pra você, esta Pérola Calma, Pro meu teu elo, O meu beijo inteiro pra você.” A gente se pertenceu tanto que a gente se machucou muito...um festival de machucados meus e teus...mas a gente ainda se pertencia. Você pertenceu minha casa, minha cozinha, minha camiseta da Edie Sedgwick, meus filmes estranhos...você pertenceu minha loucura, meu corpo àquela hora redondo da prenhice, minha louça suja.Eu te pertencia toda, você me pertencia pouco...você nunca gostou de pertencer e eu pensava: Que droga ele não me pertencer tanto. Eu te pertenci e me segurei pra não dar na pinta de que eu tava mais feliz que pinto na chuva (mas pinto na chuva é feliz?) quando me apresentou aos transeuntes: - Essa é minha mulher!! – Juro que eu não sabia pra onde olhar, o que fazer, onde colocar as mãos. Pra ser sincera eu nem lembro mais o que a gente tava fazendo ali. Eu só lembro das vezes que você pronunciou a frase: “Essa é minha mulher…Você disse assim, com toda a certeza de pertencimento. Ali mesmo você casou comigo sem precisar de padre e aliança. A gente se pertenceu mais um pouco e nosso pertencimento passou a ser dela também que nasceu dali a pouco entre gemidos e choros de dor física ou não. Ela me pertenceu e eu pertenci o anti depressivo e ansiolítico mais poderoso. A vodca mais forte agora é ela, que me sorri nas manhãs turvas ou não. Eu pertenço a ela...vocês me pertencem...vocês continuam meu corpo. A gente se pertenceu, mas as vezes o amor confundiu-se com pancadaria. Um teste de resistência. Uma prova de esgotamento nervoso. A gente se esbofeteou ...Mas a gente ainda se pertence. Te vejo dormir e automaticamente coloco meu braço em cima do seu corpo, como quem busca a certeza de um pertencimento. Você ronca. Te pertenço no café que me faz de manhã, no sarro que me tira quando lavo a louça, na mordida no cangote inesperada, no abraço terno. Te pertenço até quando sou apresentada como mãe da sua filha ao invés de sua mulher e isso me deixa aflita. O mãe da sua filha não traz nenhuma carga de pertencimento. E isso joga fora todo o texto que acabo de escrever pra você. Por que eu te pertenço e gosto de pertencer. A Obra artística é de egon schiele

domingo, 14 de abril de 2013

O AMOR DEPOIS DO DIVÓRCIO Carpinejar Arte de Fatturi

Os promotores de justiça sabem. Os juízes sabem. Os terapeutas sabem. Os massoterapeutas sabem. As faxineiras sabem. Nunca houve tanta reconciliação. Mais do que casamento e divórcio. A reconciliação é o amor autêntico. O amor bandido que se converteu à lei. O amor bêbado que largou o álcool. O amor drogado que fugiu dos vícios. A reconciliação é o amor depois das férias, recuperado da perseguição dos defeitos e da distorção das conversas. É o amor depois da mentira, depois do tribunal, depois da maldade da sinceridade, depois da carência. Casais que se prometeram o inferno, que disputaram a guarda na Justiça, que enlouqueceram os filhos com suas conspirações, decidem voltar a morar junto, para temor dos vizinhos, para o susto da parentada. A reconciliação é uma moda entre os divorciados. Mal se acostumam com o nome de solteiro e se envolvem com os mesmos parceiros. Mas os mesmos parceiros são outros. Outros novos. A distância elimina a culpa. A falta filtra a cobrança. Eles experimentaram um tempo sozinhos para descobrir que se matavam por uma idealização. Enfrentaram relacionamentos diferentes, exageros e excessos, contemporizaram os medos e as rejeições, provaram de frustrações amorosas. Viram que não existe demônio ou santo no amor. Não existe certo ou errado, existe o amor e ponto. Este amor provisório, inconstante, inacabado e vivo. Este amor pano de prato, não toalha de mesa, mas que serve para secar a louça e as lágrimas. Quem era ciumento retorna equilibrado, quem era indiferente regressa atento. A trégua salva e refina o comportamento. O casal passa a adotar no dia-a-dia aquilo que não admitia fazer e que o outro recomendava. O que soava como crítica antigamente passa a ser conselho. Gordos emagrecem com exercícios físicos, brabos examinam seus ataques de fúria. A saudade era um recalque e se transforma em sabedoria. O par percebe que é melhor ser inexato do que inexistente. Durante a separação, ninguém aceita ressalva e exame de consciência. A separação é soberba, escandalosa, arrogante. Todos gritam e espalham os motivos da discórdia. Já a reconciliação é humilde, ouvinte, discreta. Os amantes cochicham juras e esquecem as falhas. Baixam as exigências para aperfeiçoar o entendimento. A reconciliação é o amor maduro, o amor que ressuscitou, o amor que desistiu de brigar por besteiras e intrigas. O amor que é mão dada entre o erro e o perdão. Mas que agora pretende envelhecer de mãos dadas para sempre.