quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Para uma avenca partindo - Caio Fernando Abreu

Olha, antes do ônibus partir eu tenho uma porção de coisas pra te dizer, dessas coisas assim que não se dizem costumeiramente, sabe, dessas coisas tão difíceis de serem ditas que geralmente ficam caladas, porque nunca se sabe nem como serão ditas nem como serão ouvidas, compreende? Olha, falta muito pouco tempo, e se eu não te disser agora talvez não diga nunca mais, porque tanto eu como você sentiremos uma falta enorme dessas coisas, e se elas não chegarem a ser ditas nem eu nem você nos sentiremos satisfeitos com tudo que existimos, porque elas não foram existidas completamente, entende, porque as vivemos apenas naquela dimensão em que é permitido viver, não, não é isso que eu quero dizer, não existe uma dimensão permitida e uma outra proibida, indevassável, não me entenda mal, mas é que a gente tem tanto medo de penetrar naquilo que não sabe se terá coragem de viver, no mais fundo, eu quero dizer, é isso mesmo, você está acompanhando meu raciocínio? Falava do mais fundo, desse que existe em você, em mim, em todos esses outros com suas malas, suas bolsas, suas maçãs, não, não sei porque todo mundo compra maçãs antes de viajar, nunca tinha pensado nisso, por favor, não me interrompa, realmente não sei, existem coisas que a gente ainda não pensou, que a gente talvez nunca pense, eu, por exemplo, nunca pensei que houvesse alguma coisa a dizer além de tudo o que já foi dito, ou melhor pensei sim, não, pensar propriamente dito não, mas eu sabia, é verdade que eu sabia, que havia uma outra coisa atrás e além das nossas mãos dadas, dos nossos corpos nus, eu dentro de você, e mesmo atrás dos silêncios, aqueles silêncios saciados, quando a gente descobria alguma coisa pequena para observar, um fio de luz coado pela janela, um latido de cão no meio da noite, você sabe que eu não falaria dessas coisas se não tivesse a certeza de que você sentia o mesmo que eu a respeito dos fios de luz, dos latidos de cães, é, eu não falaria, uma vez eu disse que a nossa diferença fundamental é que você era capaz apenas de viveras superfícies, enquanto eu era capaz de ir ao mais fundo, você riu porque eu dizia que não era cantando desvairadamente até ficar rouca que você ia conseguir saber alguma coisa a respeito de si própria, mas sabe, você tinha razão em rir daquele jeito porque eu também não tinha me dado conta de que enquanto ia dizendo aquelas coisas eu também cantava desvairadamente até ficar rouco, o que eu quero dizer é que nós dois cantamos desvairadamente até agora sem nos darmos contas, é por isso que estou tão rouco assim, não, não é dessa coisa de garganta que falo, é de uma outra de dentro, entende? Por favor, não ria dessa maneira nem fique consultando o relógio o tempo todo, não é preciso, deixa eu te dizer antes que o ônibus parta que você cresceu em mim de um jeito completamente insuspeitado, assim como se você fosse apenas uma semente e eu plantasse você esperando ver uma plantinha qualquer, pequena, rala, uma avenca, talvez samambaia, no máximo uma roseira, é, não estou sendo agressivo não, esperava de você apenas coisas assim, avenca, samambaia, roseira, mas nunca, em nenhum momento essa coisa enorme que me obrigou a abrir todas as janelas, e depois as portas, e pouco a pouco derrubar todas as paredes e arrancar o telhado para que você crescesse livremente, você não cresceria se eu a mantivesse presa num pequeno vaso, eu compreendi a tempo que você precisava de muito espaço, claro, claro que eu compro uma revista pra você, eu sei, é bom ler durante a viagem, embora eu prefira ficar olhando pela janela e pensando coisas, estas mesmas coisas que estou tentando dizer a você sem conseguir, por favor, me ajuda, senão vai ser muito tarde, daqui a pouco não vai mais ser possível, e se eu não disser tudo não poderei nem dizer e nem fazer mais nada, é preciso que a gente tente de todas as maneiras, é o que estou fazendo, sim, esta é minha última tentativa, olha, é bom você pegar sua passagem, porque você sempre perde tudo nessa sua bolsa, não sei como é que você consegue, é bom você ficar com ela na mão para evitar qualqueratraso, sim, é bom evitar os atrasos, mas agora escuta: eu queria te dizer uma porção de coisas, de uma porção de noites, ou tardes, ou manhãs, não importa a cor, é, a cor, o tempo é só uma questão de cor não é? Por isso não importa, eu queria era te dizer dessas vezes em que eu te deixava e depois saía sozinho, pensando também nas coisas que eu não ia te dizer, porque existem coisas terríveis, eu me perguntava se você era capaz de ouvir, sim, era preciso estar disponível para ouvi-las, disponível em relação a quê? Não sei, não me interrompa agora que estou quase conseguindo, disponível só, não é uma palavra bonita? Sabe, eu me perguntava até que ponto você era aquilo que eu via em você ou apenas aquilo que eu queria ver em você, eu queria saber até que ponto você não era apenas uma projeção daquilo que eu sentia, e se era assim, até quando eu conseguiria ver em você todas essas coisas que me fascinavam e que no fundo, sempre no fundo, talvez nem fossem suas, mas minhas, e pensava que amar era só conseguir ver, e desamar era não mais conseguir ver, entende? Dolorido-colorido, estou repetindo devagar para que você possa compreender, melhor, claro que eu dou um cigarro pra você, não, ainda não, faltam uns cinco minutos, eu sei que não devia fumar tanto, é eu sei que os meus dentes estão ficando escuros, e essa tosse intolerável, você acha mesmo a minha tosse intolerável? Eu estava dizendo, o que é mesmo que eu estava dizendo? Ah: sabe, entre duas pessoas essas coisas sempre devem ser ditas, o fato de você achar minha tosse intolerável, por exemplo, eu poderia me aprofundar nisso e concluir que você não gosta de mim o suficiente, porque se você gostasse, gostaria também da minha tosse, dos meus dentes escuros, mas não aprofundando não concluo nada, fico só querendo te dizer de como eu te esperava quando a gente marcava qualquer coisa, de como eu olhava o relógio e andava de lá pra cá sem pensar definidamente e nada, mas não, não é isso, eu ainda queria chegar mais perto daquilo que está lá no centro e que um diadestes eu descobri existindo, porque eu nem supunha que existisse, acho que foi o fato de você partir que me fez descobrir tantas coisas, espera um pouco, eu vou te dizer de todas as coisas, é por isso que estou falando, fecha a revista, por favor, olha, se você não prestar muita atenção você não vai conseguir entender nada, sei, sei, eu também gosto muito do Peter Fonda, mas isso agora não tem nenhuma importância, é fundamental que você escute todas as palavras, todas, e não fique tentando descobrir sentidos ocultos por trás do que estou dizendo, sim, eu reconheço que muitas vezes falei por metáforas, e que é chatíssimo falar por metáforas, pelo menos para quem ouve, e depois, você sabe, eu sempre tive essa preocupação idiota de dizer apenas coisas que não ferissem, está bem, eu espero aqui do lado da janela, é melhor mesmo você subir, continuamos conversando enquanto o ônibus não sai, espera, as maçãs ficam comigo, é muito importante, vou dizer tudo numa só frase, você vai ......... ............ ............. ............ .......... ........... ............. ............ ............ ............ ......... ........... ............ ............ sim, eu sei, eu vou escrever, não eu não vou escrever, mas é bom você botar um casaco, está esfriando tanto, depois, na estrada, olha, antes do ônibus partir eu quero te dizer uma porção de coisas, será que vai dar tempo? Escuta, não fecha a janela, está tudo definido aqui dentro, é só uma coisa, espera um pouco mais, depois você arruma as malas e as botas, fica tranqüila, esse velho não vai incomodar você, olha, eu ainda não disse tudo, e a culpa é única e exclusivamente sua, por que você fica sempre me interrompendo e me fazendo suspeitar que você não passa mesmo duma simples avenca? Eu preciso de muito silêncio e de muita concentração para dizer todas as coisas que eu tinha pra te dizer, olha, antes de você ir embora eu quero te dizer quê

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Réquiem para um fugitivo - De Caio Fernando Abreu


Não que eu tivesse medo. Mas ele era excessivamente pálido. Mesmo sem ter nunca encarado o seu rosto eu já sabia de sua palidez, como sabia de sua frieza sem precisar tocá-lo. Estava ali desde muito tempo, desde antes de mim. Eu o via desde muito pequeno, quando minha mãe abria o guarda-roupa e eu conseguia perceber no meio dos vestidos as suas mãos demasiado longas. No começo não tinha voz para perguntar quem era, o que fazia. E quando finalmente tive voz e tive movimentos, já não era necessária nenhuma pergunta, nenhuma curiosidade. Sabia-o ali, no meio dos vestidos e dos chapéus. Sabia-o ali, pálido e frio, praticamente ausente. Às vezes me comoviam a sua solidão e a sua lealdade: nunca vira minha mãe agredi-lo mas, por outro lado, também nunca a vi tomar conhecimento dele. Nem por isso ele solicitava qualquer atenção. Estava apenas ali, tangível e remoto como a parede do fundo do guarda-roupa.
Quando cresci um pouco ganhei um quarto só para mim, o que impôs uma distância maior entre nós. Mesmo assim eu não esquecia dele. Em parte porque seria impossível esquecê-lo, em parte também, principalmente, porque não desejava isso. É verdade, eu o amava. Não com esse amor de carne, de querer tocá-lo e possuí-lo e saber coisas de dentro dele. Era um amor diferente, quase assim feito uma segurança de sabê-lo sempre ali, quando minha mãe saía e eu ficava sozinho ou quando havia tempestade. Mais ou menos como essa coisa que as pessoas são capazes de sentir por um móvel ou um objeto muito antigos. A única diferença era que eu não admitia que ninguém mais pensasse assim. Para ser mais claro: eu tinha ciúme. Nada sei a respeito de sua vida privada, mas às vezes chegava... por assim dizer... bem, chegava a desconfiar dele com minha mãe. Hoje é a primeira vez que tenho coragem de admitir isso, porque uma coisa terrível aconteceu.
Muitas noites eu ficava tenso na minha cama, procurando ouvir ruídos — certos ruídos — no quarto de minha mãe. Para ser justo, devo dizer que nunca ouvi nada. Claro que de vez em quando alguma madeira estalava no teto, algum rato ensaiava uma corrida furtiva, ou acontecia qualquer outro desses rumores noturnos. São coisas corriqueiras essas, que acontecem, suponho, em qualquer casa — e digo suponho porque nunca vivi em outra casa que não a minha. Mesmo sabendo disso, eu me contraía cheio de suspeita e mágoa. Imaginava-os na cama, fazendo amor, e isso me doía mais, muito mais do que qualquer outra coisa, a não ser a que aconteceu hoje de manhã.
Minha mãe foi muito correta. É verdade que sempre foi viúva, desde que me conheço por gente, mas é verdade também que nunca me tornou cúmplice de sua viuvez. Devia ter seus problemas, claro, mas nunca me tornou participante deles. Ela os resolvia em silêncio, discreta, sabendo que eu sabia, mas sem me impor absolutamente nada. Inclusive a presença dele, ela não me impôs. Não que o tenha ocultado (e essa atitude me faz ter quase certeza que realmente nada havia entre eles): abria sem dissímulo a porta do guarda-roupa e eu espiava para dentro sem que ela impedisse ou estimulasse. Também nunca me falou dele. Nem dele nem de outro qualquer, de dentro ou de fora do guarda-roupa. Não que não tivesse confiança em mim, na verdade nunca demonstrou isso — nem o contrário. Embora não nos falássemos, ela sempre foi muito educada, muito gentil. Não lembro de tê-la ouvido falar alguma vez em voz baixa ou em voz terna, ou mesmo em qualquer outra voz, mas isso não importa: o essencial é que ela nunca gritou. E se é verdade que não chegamos a ter amor uM pelo outro, é verdade também que não chegamos a ter ódio. Acredito mesmo que tivéssemos descoberto a forma ideal de convivência e comunicação.
A vida era muito dura. Não chegávamos a passar fome ou frio ou nenhuma dessas coisas. Mas era dura porque era sem cor, sem ritmo e também sem forma. Os dias passavam, passavam e passavam, alcançavam as semanas, dobravam as quinzenas, atingiam os meses, acumulavam-se em anos, amontoavam-se em décadas — e nada acontecia. Eu tinha a impressão de viver dentro de uma enorme e vazia bola de gás, em constante rotação. A vida só se tornava mais lenta quando, aproveitando a ausência de minha mãe, eu abria devagarinho a porta do guarda-roupa para vê-lo. Não ousava encará-lo: acreditava que seria necessária uma longa aprendizagem antes de submetê-lo à visão da minha face. Não que ela fosse excessivamente feia ou disforme, não se trata disso. Mas é que não havia no meu rosto nada de peculiar ou de interessante, nada que fosse digno de seu olhar. Ele tinha um olhar feito somente para coisas dignas, esclareço.
Assim, eu me satisfazia em observar seus pés, suas pernas, até um pouco acima dos joelhos onde repousavam, suspensas, aquelas mãos. E isso era espantoso: os pés, as pernas, os joelhos, as mãos. Era tão maravilhosamente espantoso que eu não suportaria olhar mais adiante, seria demasiado para meus pobres olhos que, ao contrário dos dele, foram feitos para o trivial. Seus pés eram muito magros e estavam descalços. Tinham magníficas falanges de ossos perfeitos e um detalhe que os diferençava de quaisquer outros pés — o segundo dedo era maior que o primeiro, e de uma perfeição indescritível, com sua ponta levemente quadrada e sua unha um pouco azul, como se ele fosse anêmico ou sentisse muito frio. Foi pensando nessa segunda hipótese que, um dia, de cabeça baixa, troquei alguns vestidos de lugar, deixando mais próximo dele o casaco de peles de minha mãe. Acho que não adiantou nada, pois no dia seguinte a unha do segundo dedo continuava azulada, com uma pequena diferença: a meia-lua estava um pouco mais estreita. As suas pernas eu não podia ver, havia aquela roupa branca muito comprida, que escondia inclusive os tornozelos. Ainda assim, podia intuir por baixo do tecido leve a delicadeza de sua ossatura, que se confirmava nas mãos, dignas de qualquer poema, de qualquer tela, de qualquer sinfonia. Sei que fico um tanto ridículo falando delas nesse tom, mas não consigo evitá-lo: quando se quer explicar o inexplicável sempre se fica um pouco piegas. Por isso me eximo de descrevê-las. Digo apenas que estavam ali, paradas, e aqueles pés esplêndidos em muito ficavam lhes devendo. Eram essas mãos que povoavam meus sonhos. Meus sonhos eram repletos dessas mãos, que ora me indicavam caminhos, ora me acariciavam os cabelos, ora dançavam tomadas de vida própria. Acordava assustado com minha própria audácia, chegando a desejar que num dos sonhos elas ensaiassem um gesto mais ríspido para que eu pudesse detestá-las ou temê-las. Mas eram sempre doces, e isso nunca aconteceu.
Foi quando minha mãe morreu, ontem à noite. Eu estava deitado no meu quarto quando a ouvi morrendo. Era um som inconfundível: nenhuma das suas caixinhas de música, nenhum dos ruídos noturnos, nenhum de seus amantes conseguira jamais produzir aquele som. Era escuro e rouco como as coisas que não têm depois. Fiquei a escutar por um instante, sem me abalar, pois sabia que ela morreria um dia, como todas as pessoas, e não me atemorizava nem me surpreendia que esse dia fosse ontem, hoje ou amanhã. Depois de escutar durante uns cinco minutos abandonei as flores de cartolina que costumo fazer e fui até seu quarto. Quando cheguei, o som já havia diminuído de intensidade e, quando a toquei, desaparecera por completo. Deduzi que estava morta. Telefonei para o médico, que veio e confirmou minha suspeita, e depois para a funerária, que a encaixotou e levou. Passei a noite mais insone do que de costume. Restávamos, agora, eu e ele. E eu não sabia como tratá-lo, como comunicar a ele o acontecimento. Imaginava que as pessoas como ele fossem difíceis, sensíveis, e ele era tão mais pálido que as gentes que eu costumava ver pelajanela que estava realmente confuso.
Hoje de manhã armei-me de toda coragem e abri a porta do guarda-roupa. Ele estava lá, no mesmo lugar. Foi só então que tive a minha suspeita — pois até esse momento não passara de uma suspeita — confirmada. As dúvidas se diluíram e eu tive certeza: tratava-se realmente de um anjo. Não sei se arcanjo ou serafim, mas indubitavelmente, irreversivelmente, inconfundivelmente — um anjo. Olhei-o, então. Acreditei que o momento houvesse chegado, e olhei-o. Confesso que esperava um sorriso ou qualquer outra manifestação dessas de afeto. Mas não houve nada disso. Não pude sequer perceber se era moreno ou louro, castanho ou ruivo. O que aconteceu foi apenas um clarão enorme e um ruído quase ensurdecedor de asas... como se diz mesmo?... ruflando, é isso: um ruído quase ensurdecedor de asas ruflando. Em seguida saiu pela janela aberta, alcançou os galhos mais altos dos plátanos desfolhados e desapareceu. Julguei ainda ouvir a voz dele dizendo que voltaria, mas não explicou quando. Não sei também se disse isso apenas por gentileza, para me consolar, ou se realmente pretende voltar um dia.
O que nunca pensei é que pudesse ser assim tão vazia uma casa sem um anjo. Dentro de mim existe alguma coisa que espera a sua volta, de repente, não sei se pela janela ou se aparecerá novamente no mesmo lugar. Para prevenir surpresas, tenho deixado sempre abertas todas as janelas e todas as portas de todos os guarda-roupas. Enquanto não chega, preparo duas coroas de flores: uma para o túmulo de minha mãe, outra para o guarda-roupa que ele habitava.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Enquanto a sirene do telefone não tóca


ARTE DE jonh jonh jesse

Dizia- me que tem saudade, mas por que então não apareceu para umedecer a minha caixinha de mistérios e afetos malogrados ?
Por que então atrevido não me disse coisas indecentes ao ouvido?
Posso ser égua além de mulher , além de qualquer bicho no cio.As entradas sãos as mesmas não são ?
E então porque espero a sirene do telefone tocar como quem espera por socorro?
Vai agora!
Beija minhas costas.
Puxe meus cabelos.
Acenda seu cigarro com o corpo nu.

Quem foi que te disse que não poderia entrar?
Entre e fique à vontade...Penetre e fique.
Afinal , não sou eu quem corre riscos?Tudo bem eu topo.Aposto meu coração com a certeza de que vou perdê-lo.Mas dá-lo à você não é pior que deixá-lo na inércia.
Tá bem, já perdi.Mas então quando virá reclamar seu prêmio?Busque o coração e leve o corpo de brinde.Coloque-se ao lado dele , gostoso como você sabe ser e chova.Chova em cima dele.
Dirias que muito me assanho ?Ou que compreende todas as minhas lacunas ( e buracos ) de mulher?
Então vem logo, que tua mão é delícia, mesmo que tão pequena diante da minha.
Ah vem logo ilustre alvo do meu desejo: Rasgue-me a dente sem piedade porque não almejo de forma alguma santidade.
Isto é um juramento: Lhe serviria três vezes ao dia se assim fosse o seu pedido, então porque não pede querido?
Por que não vem se guardar em mim com toda a sua filosofia? Eu tô querendo não percebeu ?
Te ofereço amor , poesia e nudez de corpo..Te apetece?
Pode entrar amor , que o corpo é todo seu .Encontrará vestígios de licores vermelhos (escarlate), e cheiro de vodka na alma toda. Se coloque inteiro entre a alma das pernas e fique tranquilo com as indecências circunvizinhas.
Tudo bem meu anjo eu assumo excesso de lascívia, mas fui batizada pelo fogo e não pela água.Me santifico pelo corpo do outro.E esse corpo do outro agora é o seu , como poderia evitar?Você me cobriu inteira...Você agora é o meu outro...meu outro lado , meu outro fado , minha outra peça, minha outra esperança guardada na caixa de pandora.
Vem logo dá movimento ao meu dia .Tá sol aqui, tá quente...Vamos fazer uma transfusão de suores e licores e saliva...Que tal ?
To aqui então esperando a sirene do telefone tocar ...

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Etilismo


Deus ajude nos momentos vazios...
Todos os homens que atravessaram o umbral de minha porta com meu cheiro corpóreo nas mãos, não aparecerão de uma hora para outra para um qualquer abraço ou carinho.
Claro que sou forte , oras...e certos dias me encontro indiferente às paixões e decepções quotidianas.Mas há os dias em que as lágrimas me invadem e não me explicam o motivo .Há dias em que os vazios não podem ser preenchidos com chocolates ou bebidas alcoólicas.
Há dias em que tudo está perdido , em que tudo está escuro e frio.
Há dias em que se sente falta de qualquer coisa.Que se sente falta não se sabe de quê, que tudo o que se quer é desaparecer ou dormir.Dormir um dia inteiro ou uma noite inteira.E ai o melhor amigo é a caixa de comprimidos para dormir ... ou a garrafa de vodka escondida no guarda-roupa esperando a hora certa de agir.
Há os dias em que nada alegra , nada estimula , nada faz bem.
Tudo é dor e sofrimento .Então viro criança e me escondo debaixo da cama , como quando corria das chineladas da mãe depois de uma travessura.Mas agora , com uma garrafa de vodka na mão e na outra um gilete afiado , tenho a esperança de que uma hora dessas vou ter a tão esperada coragem ...de acabar com tudo num simples e redentor ato.Mas os fantasmas de afetos me lembram que ainda há gente que me quer viva.
Titubeio ...
E apenas admiro o brilho da lâmina , e então bebo mais um gole de vodka.
A garganta queima , o peito dói, o vazio aumenta ainda mais.
A lâmina então é endereçada a qualquer outro canto não vital do corpo.
Cortes superficiais para distrair a dor de dentro.O sangue em pequenas gotículas pintam a pele de leve, e eu me alivio como numa dose de heroína.Vou fechando os olhos ...os comprimidos também vão fazendo efeito...
Acordei...percebi que não estou com sono ...estou bêbada ...levemente efervescente.
Sequei minhas lágrimas, sai de debaixo da cama, tirei minha roupa...
Estou nua de frente ao espelho .A nudez é sublime...O corpo nu é sublime...Os seios são divinos...O rosto já não é tão belo, é marcado , desigual , poroso, nada de atraente .Mas os seios são bonitos.Se eu fosse homem adoraria mordê-los...Se fosse homem ?Não ...Eu adoraria mordê-los como mulher mesmo...Sinto inveja dos homens que o mordem ...Queria que estes seios fossem de outra , para que eu pudesse mordê-los.
Cansei...Falarei de meu estado ébrio.Eu estava chorando , mas recebi um telefonema inesperado.Precisei secar as lágrimas para atender.Não gosto que me ouçam chorando.Era ninguém , não lembro do que falou.Desliguei e saí de debaixo da minha cama.Acho que foi Deus , ele não gosta de me ver chorar...aí ele me ligou por que sabia que eu secar as lágrimas para atender.
Deus é um sacana mesmo.Aparece nas horas mãos absurdas.Interrompeu meu choro!E quem disse que eu queria parar de chorar?Eu amo minha cruz também , respeito meu pranto.Se tenho vontade de chorar choro.Mas que merda , sofrer também é necessário sabia Sr. Deus ?O senhor mesmo já não sofreu ?Pelo menos me contaram quando eu era criança ...dizem que o senhor sofreu por nós né ...Mas não sei , não posso afirmar com certeza , por que não tenho intimidade com senhor...Mas com que raios de direitos inventou de interromper meu choro ?Agora tô aqui sem sofrer , sem chorar , sem rir , sem nada...Que saco voi Senhor Deus!
Estou esturricada agora...
Comecei a escrever chorando .E agora estou aqui vazia de sentimentos.Bêbada de vodka.
Bêbada?Não , não estou bêbada.Há tempos que não fico bêbada.Criei resistência ao álcool.Bebo vodka como quem bebe um cafezinho com bolachas.Não me critique.Preciso de venenos para sobreviver à vida.Preciso de venenos para sobreviver à minha vida.
E nem venha me chamar de infeliz.Sou feliz do jeito que posso ...Bebendo , escrevendo , trepando...Sou um artefacto de Deus.Ele precisa de mim , não eu dele...Isto não é blasfêmia.Eu não preciso dele por que já sou divina.Minha divindade brota nos poros .Mas eu não broto nos poros de Deus .E por isso mesmo ele precisa de mim.E por isso não deixa eu morrer na hora que quero, e interrompe meu choro .Deus é um sacana mesmo.Deve tá é rindo de mim à esta altura...
Não estou mais vazia , me enchi de divindade agora.Meu corpo todo se arrepia de vitalidade e erotismo.Estou tendo um orgasmo com Deus.Fomos feitos um para o outro.Agora vejo por que exatamente interrompeu meu choro.Foi bem feito!Esqueci dos meus vazios.E agora estou feliz , lânguida e saciada.Deus preencheu meus vazios com os orgasmos dele.Só o amo por isso mesmo: ele me lota a alma com seus orgasmos luminosos.Deus é divino mesmo.
(...)
Ando amando um homem.Estou pensando nele agora mesmo.Ele é também divino.Meu útero o ama, e se enche de alegria quando ele está por perto .Ele preenche meu útero de volúpias e crescentes delícias.Eu o amo com todo o meu útero !!! Que ? Isto não é amor ?Ora , amar com o útero é divino.É preciso amar com o útero para não sofrer .E eu sofro também quando não o amo apenas com o útero.
Amar com o coração é tão doloroso!!Não gosto de amar com o coração ...prefiro o útero!Mas ainda assim há vezes que o útero faz uma sociedade com o coração ...Aí o que eu posso fazer ?Fico completamente indefesa...sofrendo.
Fui feita para amar .Deus concentrou uma grande quantidade de amor em mim.Nisso não sou grata.Ele ainda me paga por isso.Haverá o dia em que amarei apenas a mim mesma.E nem Deus venha mendigar amor ...não terá.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Seus abraços não eram mais os mesmos...


Seus abraços passaram a ser diferentes depois que ele tocou seu corpo nu na escuridão de um pequeno quarto.Ela estava experimentando novas sensações.O corpo dele exalava um cheiro nunca sentido por ela .Era viciante.Não sentia nada parecido em nenhum corpo-lugar.Ele pesava em cima dela, era esmagada com aquele corpo forte, que a cobria por inteiro, nenhum pedaço de seu corpo ficava sem ser coberto por aquele grande homem.Tudo nele era grande.Seu sexo era vasto...e doía nela às vezes.Mas a dor era rapidamente esquecida , quando seu corpo se enchia de um liquido mágico, um liquido vital.Ela inchava de tão feliz.
O sexo daquele homem enorme, tinha um gosto peculiar.Tinha uma forma peculiar: grande , bonito , talhado...esculpido como uma obra de arte.Ela gemia só de ficar olhando.Ela não queria mais outra coisa.Ele estava de acordo com ela...Mas que coisa!
Como podia ...um ser tão incorpóreo...tão idílico...Começou a achar que ele não era deste mundo...que estava participando de uma imaginação coletiva....
Não ...ele era de verdade sim...
E ele fazia isso com ela...a decifrava inteira.Descabelava , descaminhava , destrinchava, desarrumava ela toda.
Seus abraços não eram mais os mesmos depois da primeira vez ...Ela não podia mais conter seu coração acelerando toda vez que o encontrava...Estava apaixonada? - Não , negava pra si mesma.Mas sim estava ...como poderia negar ?Se seu cheiro era presente nela o tempo todo...se seu toque a paralisava.
Ela queria mais , e mais , e mais ...Viver com ele...não havia mais nenhuma outra ambição , apenas dormir e acordar com ele dentro dela...pra sempre.Queria seu sexo como melhor amigo , como alimento , como bebida.Não havia mais nada a se querer além de ser sorvida , molhada , comida por ele.
Seus abraços passaram a ser diferentes da depois da primeira vez...
Ela se intumescia toda, depois do abraço dele...Seus seios inchavam , e os bicos endureciam de tesão...O sexo se afogava, suas mão tremulas , seu rosto enrusbecido.
Ela não podia esconder...estava toda viciada nele.Tudo em seu corpo chamava por ele...
Seus abraços não eram mais os mesmos...

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Congratulações a Antônio (ou Ao Antonio que faz o corpo fervilhar)


São mais de quatro anos de convivência corpórea, entre pausas, lágrimas, sorrisos e gemidos.Eu não sei por que , mas te amo.Sei bem que palavras não te tocam .Você vai me ler com um centésimo da emoção que uso pra escrever.Cartas, poesias e palavras te causam tédio.Eu sei bem ...Não faz mal.Não mais.Afinal foi por esse homem grosso, estúpido e embrutecido que me apaixonei.Me apaixonei, sofri , desapaixonei, esqueci, apaixonei de novo, e de novo, e de novo...
Sempre que me colocares as gotas de teu sêmen em qualquer canto do meu corpo me apaixonarei!É assim: as mãos tocam na saudade instalada eterna, na boca e entre as pernas, e daí tudo fica mole, tudo se desnovela...e eu (coitada) me apaixono, me apaixono e me apaixono.
É de dar raiva Antônio, é de dar raiva.
Essa chateação chamada desejo , esse gosto de pescoço na minha boca, esse sentimento de penetração, essa esfregação toda.
Ai que raiva do meu corpo Antônio, ele não é mais meu , ele é seu o tempo todo.Vai Antônio , pega ele de vez e leva contigo.Se cobre com ele à noite e se enrola todo.
Cadê? Não fez? Por que Antônio , por que?
Meu homem escuta essa minha lástima:Quem me acordará no meio da noite com algo empinado pedindo cólo?Quem Antônio?
Ah Antônio ,já falei demais.Me embriaguei com palavras insólitas.
Vai embora , vai Antônio, me deixa em paz.Loiraças gostosonas e vazias chovem ao monte por aí , e é disso que você precisa.Não me escolhe mais Antônio.Vou me trancafiar Antônio para que não entre mais.Para que não entre mais em mim.Não quero mais nada teu dentro de mim.Ouviu Antônio?
E antes que me esqueça , um feliz aniversário!